Já faz algum tempo que estava enrolando para escrever um texto sobre a minha posição sobre deus(es), religiões e coisas do tipo por aqui, mas devido ao grande número de comentários de pessoas que simplesmente não lêem o que eu escrevo e aparentemente não têm a menor vontade de colocar os neurônicos para funcionar, acho que é melhor deixar logo as coisas claras de uma vez. Tenham paciência, pois trata-se de um texto longo. Recomendo mesmo que você imprima o post se pretende lê-lo. Se você não tem saco, é melhor ignorar. Procure outro blog para escrever comentários imbecis que não serão aprovados. Você certamente vai estar empregando melhor o seu tempo.
Começando pelo início: eu acredito que Deus existe, mas minha visão dele passa longe da idéia clássica de um velho barbudo e recalcado que passa o tempo como um voyeur, espionando a vida de cada uma das pessoas do mundo anotando pontos positivos e negativos para aparecer numa data arbitrária e dizer “E aí seus putos! Hora do julgamento!”. Isso é mesquinho, idiota e pateticamente humano – e, como vocês verão adiante, isso também é impossível.
Raciocinem comigo. Segundo a grande maioria das religiões (acredito mesmo que sejam todas, mas não quero me arriscar aqui), Deus é um ser onipotente, onipresente e onisciente. Em outras palavras, respectivamente:
- Ele é capaz de ter tudo o que quer a qualquer momento, bastando desejar alguma coisa para tê-la.
- Pode ver tudo o que acontece em todos os lugares ao mesmo tempo e tem uma capacidade de atenção infinita, portanto pode acompanhar cada pequena coisa que acontece no universo.
- Sabe de tudo. Isso é um pouco vago, portanto vou tentar uma frase maior para deixar claro o que isso significa: ele tem ciência da totalidade dos acontecimentos passados desde a origem do universo, consegue absorver tudo o que está acontecendo no tempo presente e é até mesmo capaz de enxergar o tempo em sua totalidade, sabendo o que existe no futuro.
Pergunte a um padre, monge, espírita ou praticante de qualquer uma das principais religiões e você terá uma definição parecida com essa. Chegou até aqui numa boa? Ok. Agora vem a parte divertida.
Imagine que você tem o poder de ter tudo o que quer. Qualquer coisa, pequena ou grande, bastando desejá-la. Um copo de água no meio do deserto? Você tem. Pista livre numa sexta-feira na hora do rush? Você tem. O melhor carro do mundo? Você tem. A mulher mais gostosa de todos os tempos, linda e sem a menor vergonha? Você tem. Um homem sensível, bonito, inteligente, compreensivo e com um pau de 30cm? Você tem. Uma fortuna maior que a do Bill Gates? Você tem. Poder para acabar com todas as guerras – ou começar algumas, só por diversão? Você tem.
Em resumo, você está plenamente satisfeito. Qualquer vontade sua é saciada imediatamente, sem esforço algum. Agora imagine isso em nível global. Por quê parar aqui? Imagine isso em nível interplanetário, galático, universal. Esse é o tamanho da onipotência de Deus.
Uma nova estrela com brilho inigualável? Você tem. Um buraco negro capaz de tragar uma galáxia inteira? Você tem. O fim de tudo o que conhecemos? Você tem.
Da mesma forma, imagine que você pode ver tudo a sua volta, mesmo o que está atrás de você. Agora imagine que você pode ver o que todas as pessoas na sua rua estão vendo – tudo ao mesmo tempo. A dona de casa na cozinha, o motorista de táxi aguardando um passageiro, a velha maluca que tem 30 gatos, o garoto que tem uma banda emo e toca bateria a tarde toda, a filha da vizinha que está a fim do frentista do posto na esquina, o síndico discutindo com o aposentado que precisa preencher o seu tempo com alguma coisa… Imagine todas as pessoas no bairro agora. Aumente para a sua cidade. Todo o estado. Todo o país. Todo o continente. Todo o mundo. Inclua os animais, plantas batérias e, quem sabe, objetos inanimados. Você consegue ver tudo sob o ponto de vista de cada um deles. Tudo ao mesmo tempo.
Em sua onisciência, imagine que você não só pode ver, mas também sabe o que cada um deles pensa sobre cada um dos outros seres ao redor de cada um dos seres existentes – até o infinito. E você também sabe o que aconteceu e o que vai acontecer com cada um deles.
Você tem tudo, sabe tudo, está em todos os lugares. Você é completo pois é a totalidade das coisas que existem e pode fazer o que bem entender com isso. Agora pare e preste atenção.
O que define um ser humano é o fato de nunca estar satisfeito, sempre estar procurando alguma coisa para se sentir completo. Por mais que você tenha, você sempre quer alguma coisa. Você se cansa da cidade e quer se mudar para o campo. Quando chega no campo, fica entediado por não ter nada para fazer à noite. Você tem fome, você é carente, você precisa de mais do que tem. Na verdade, o único momento em que um ser humano não quer mais nada é quando morre.
Mas Deus nunca morre. Deus tem tudo, portanto não quer nada. Deus sabe de tudo, portando não precisa saber mais. Deus sabe o que vai acontecer, portanto não tem expectativas.
Deus não tem uma mente humana. Deus não é bom nem mau. Deus não recrimina. Deus não espera. Deus simplesmente é. Deus são as forças da natureza, o mundo inteiro, todo universo, todas as pessoas que não conseguem concordar entre si pois são parte de algo que elas não entendem. Sendo assim, Deus não gosta ou desgosta de ninguém, é incapaz de castigar ou premiar. Ele simplesmente está em todo lugar, sempre esteve e sempre estará – até decidir não estar mais. Mas, em sua onisciência, ele sabe exatamente quando vai fazer isso, portanto não tem expectativas.
Deus não pensa como você. Você não é parecido com Deus. Na verdade, você é uma pequena partícula insignificante de algo grande demais para ser compreendido… mas ei, isso é bom. Isso significa que você é livre para fazer o que quiser, pois Deus não é um cara barbudo que fica dando uma de voyeur e sacaneando pessoas que não obedecem a um conjunto arbitrário de regras. Ele sequer precisa olhar porque já sabe o que cada uma das pessoas vai fazer. Ele não quer que você se dê bem ou mal porque ele não quer nada – afinal tudo o que ele quer, ele tem.
Agora vem a parte que a maioria (totalidade?) das religiões faz questão de ignorar.
Deus está em toda parte. Digamos que eu esteja errado, que ele afinal preste atenção especial em alguém que esteja pedindo algo diretamente a ele. Digamos que ele preste atenção em alguém que esteja rezando.
Que diferença faz se esta pessoa está rezando no banheiro, na sala, na rua, no bar, no campo de futebol, na cama, em frente ao computador ou numa igreja? Pense honestamente nisso. Deixe de lado o que você aprendeu na escola religiosa (se você estudou em uma) ou o que seus pais disseram (se eles disseram alguma coisa).
Não há diferença.
Nesse ponto todos os padres, bispos, pastores, monges e pais de santo arrancam os cabelos, pois não existe realmente um argumento contra isso. Recorrer a algo que está na bíblia só vai piorar as coisas: ela foi escrita por pessoas e depois traduzida, corrigida, revisada, modificada para atender interesses diversos, revisada de novo, corigida novamente e por aí vai. Multiplique o processo centenas de vezes e imagine o que sobrou do texto original. Dizer que ela foi “inspirada por Deus” também não ajuda: os homens-bomba também dizem isso e pouquíssimas pessoas admiram o que eles fazem.
Não vou entrar no mérito da existência ou não de Jesus. Particularmente acredito que ele existiu e foi um cara notável, mas paro por aí. Não levo a sério os milagres simplesmente porque era uma época de grande ignorância. Qualquer pequeno acontecimento que fosse razoavelmente difícil de explicar recebia o rótulo de milagre – mesmo a descoberta de um ponto de um rio com mais peixes, a receita de uma massa de pão que rendesse mais ou um ungüento que curasse uma doença ocular simples que atualmente jamais causaria cegueira em alguém. Também não acredito que ele tenha sido “o filho de Deus”. Na prática todos somos, portanto não faz a menor diferença.
Mas a idéia principal aqui é bem simples: igrejas de qualquer espécie são completamente desnecessárias. São apenas uma maneira de reunir pessoas que pensam de uma maneira parecida. Até aí tudo bem, mas o mesmo vale para torcidas organizadas, partidos políticos e por aí vai.
Eu disse partidos políticos de propósito. Isso porque a idéia principal de todo esse enorme texto é a seguinte:
Religião não tem nada a ver com Deus.
Isso mesmo. Religião é apenas política – e feita da maneira mais vil, pois explora a crença das pessoas em algo impalpável, algo que elas precisam para preencher um enorme vazio criado pelo fato de todos estarmos, invariavelmente, sozinhos no mundo. Um Deus com características humanas – raiva, bondade, maldade, desejos, generosidade etc. – é uma criação do ser humano que serve como ferramenta para tornar sua existência tolerável. A religião serve para as pessoas se eximirem da responsabilidade de decidirem seus próprios destinos com frases como “Deus quis assim”, “agora entreguei a Deus”, “essa é uma provação de Deus”, “tudo o que tenho eu devo a Deus” e, a mais usada de todas “graças a Deus”.
A religião católica foi responsável por um genocídio inacreditável na época das cruzadas. Os evangélicos da IURD no Brasil são responsáveis pela maior operação de extorsão que se tem notícia na história. Diversas seitas menores já levaram ao suicídio de milhares ao redor do mundo. Mas fazer o quê? As pessoas precisam culpar alguém por suas vidas, seja deus ou o diabo. É algo mais antigo e às vezes mais poderoso que os governos, portanto estes são coniventes com a exploração da fé.
Mas isso significa que a fé genuína é inútil? Acredito que não. Muitas vezes uma crença fornece um foco para a mente, mas qualquer uma funciona nesse caso. Embora não seja religioso, acredito que qualquer coisa que você faça pode influenciar o mundo ao redor. Há muito que não sabemos sobre nós mesmos e sobre o universo em geral. Nós somos capazes de enxergar apenas quatro dimensões, sendo que uma delas – o tempo – apenas como uma linha ininterrupta que segue apenas em uma direção. Quem garante que as coisas são exatamente do jeito que nós vemos? Muitos cientistas acreditam que há algo além. Vestígios de Deus? Sim, você pode dar esse nome, assim como vários outros – física quântica é um deles. Mas uma coisa é certa: nenhuma religião estabelecida tem Deus como prioridade ou finalidade. Basta dar um passo atrás, olhar com senso crítico e comprovar.
7 Comments
Só um comentário aleatório: religião vem de religare, de reunir algo que, pressuposto, está separado e estava junto.
Metafisicamente falando, é despertar o fascínio para com o universo e, por redução, para a maravilha que é viver.
Isso é ensinado no catecismo. Pena que esquecem disso nas aulas seguintes! :D
Curioso como alguns dos elementos da crença alheia são justamente os elementos que justificam minha total descrença em uma divindade. (gargalhadas insanas)
Minha visão de Deus é bem parecida com a sua, e sobre a história de Jesus também. Cara, terminei de ler recentemente um livro muito foda, do José Saramago, chamado “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Detalhe: Saramago é ateu, mas um grande estudioso. O livro é excelente e tem tudo a ver com seu texto. Igreja é política, concordo totalmente.
Beijinhos e boas férias. =)
Só mais uma coisa. Pau (de 30cm, sem KY) no cú de quem não tem mais o que fazer pra ficar enchendo o saco nos blogs dos outros. uia, que mal educada eu sou #)
O Ser humano pode pensar muitas coisas a respeito de Deus, pode aceita ou não a sua existencia. Pode blasfemar, pode criticar a biblia ou até mesmo não acreditar nela, por ter sido escrito por homens. E muito facil criticar a biblia, quando não á lemos, as pessoas dão mais credito na quilo que os jornais escrevem; do que na biblia que profetizou o que esta a contecendo.
Digo a vcs leiam a biblia, ela vai ensinar muitas coisas, conheça a Deus, antes de falar mal dele, conhece a Jesus antes de falar mal dele. Leiam a biblia antes de falar mal dela.
Muito Obrigado, meu nome e jadiel tenho 26 anos e sou missionário na igreja adventista da promessa.
FZero: Eu não falei mal de deus, falei mal das igrejas em geral e do uso que elas fazem de deus para controlar as pessoas através do medo e da ignorância. É só ler o texto direito. Quanto à bíblia… você não está falando daquele livro onde, entre outras coisas, está escrito que não há nada de errado em vender as filhas como escravas (Êxodo); que nenhum homem pode ter cabelo comprido e que criancinhas malcriadas devem ser apedrejadas (Levítico); que é inconsistente na própria criação do universo, dizendo primeiro que deus criou homem e mulher juntos e depois separados (Gênesis) e que tem outras dezenas histórias de violência, traição, incesto e por aí vai? Cara… se você acha o deus que está na bíblia um cara legal, você tem problemas. Aliás, como diria Penn Jillette, a melhor maneira de ter mais ateus no mundo é fazer mais pessoas lerem a bíblia de cabo a rabo.
Seus Deus é tão humano, tão quadrado, tão pequeno e calculável. Pensei que depois de ler essa motanha de coisas teria um final mais, ah! Que chato o seu texto.
FZero – Quem disse que ele é meu? :-) By the way, é uma boa você ler de novo essa “montanha de coisas”… se você acha que um Deus que engloba absolutamente tudo é pequeno, você tem problemas. Mas fazer o quê, tem gente que prefere ter um velho barbudo e controlador vigiando tudo o que todo mundo faz.
Gostei muito de ter lido essas informações! E agradeço por ter contribuido para que eu entendesse um pouco mais sobre essas coisas! Seu texto todo é muito legal! Vale a pena ler.
Parabens pela iniciativa