Ubuntu 7.10 – Memórias de meus upgrades

Como esmagadora maioria dos usuários de Ubuntu, fiz esta semana o upgrade da versão 7.04 (Feisty Fawn) para a 7.10 (Gutsy Gibbon). Tenho duas máquinas – um notebook Toshiba M35X-S311 (Centrino Pentium M 1.5) e um desktop AMD64 com chipset nForce [*] – e tive experiências bem diferentes durante os dois upgrades.

O plano

Minha intenção era fazer o upgrade no notebook através do update manager e uma reinstalação completa no desktop. Ambos estão configurados com uma partição /home separada, o que torna tudo bem mais fácil.

O desktop estava com a versão AMD64 do 7.04, mas depois de algumas frustrações instalando programas multimídia com pacotes binários que me fizeram gastar um bom tempo criando configurações especiais (e alguns não funcionavam 100% nem assim) decidi retornar para os 32 bits. O pequeno ganho de performance simplesmente não estava compensando a chateação.

Go go go!

Baixei as ISOs Desktop e Alternate install via bit torrent ridiculamente rápido (mais de 1000 seeders!), queimei os CDs e comecei pelo notebook. Como a procura pela distro estava absurda nos primeiros dias, decidi tentar usar o CD Alternate para fazer o upgrade ao invés de usar a conexão e me arriscar a ficar com o processo parado na metade.

Coloquei o CD no drive e, bingo, o Ubuntu se ofereceu para fazer o upgrade. Lindo. Vamos lá.

No meio da instalação o processo pára com uma mensagem de erro dizendo que o CD estava corrompido. Fiz o boot pelo CD e pedi o teste de mídia. O CD estava sem problema algum. Estranho. Bootei novamente o notebook e resolvi arriscar fazer o upgrade via rede mesmo. O congestionameto nos servidores já não estava tão grande e o processo finalmente começou.

Após alguns minutos baixando arquivos e alterando configurações o processo para de novo, dessa vez reclamando que não havia espaço suficiente em disco (1.2Gb na partição do sistema, quando são necessários 1.6Gb).

Queridos desenvolvedores, anotem esse pedido simples de um usuário fiel: se você tem como me avisar de antemão que eu não vou ter espaço suficiente para fazer um upgrade, faça isso antes de me fazer perder tempo. Eu realmente não precisava ter esperado 15 minutos vendo o update manager baixar arquivos e alterar configurações à toa.

A única alternativa acabou sendo fazer uma reinstalação do zero mesmo. Foi nesse momento que surgiu…

O bug

Bug absurdo no Ubuntu 7.10 com vídeo Intel Assim que o CD terminou o boot e entrou no desktop, algo parecia errado. As barras de título das janelas estavam enormes, com apenas uma letra aparecendo. Vejam bem, eu gosto de design de vanguarda, mas não desse jeito. Consegui resolver o problema desligando os efeitos 3d no painel de controle. O visual continuou normal depois de ligar os efeitos de novo. “Hm, ok. É um vacilo, mas vamos lá”.

Com a instalação terminada, rebootei o notebook. Tela de login no ar. Vou escrever o meu username e a fonte dentro da caixa de texto está enorme. Por sorte, depois do login, o desktop parecia normal, mas a tela de login sempre apresentava o mesmo problema.

Depois de uma (não tão) rápida pesquisa no google descubro que o Ubuntu foi lançado com um bug em um dos drivers de vídeo para as placas Intel presentes em quase 80% dos notebooks vendidos hoje em dia. Pior que isso, a solução envolve editar arquivos de configuração.

Em 2007.

E isso depois que a versão anterior detectou perfeitamente a mesma placa de vídeo.

Pisada de bola feia, certo?

Eu imagino qual seria a reação da minha mãe instalando o Ubuntu e vendo uma coisa dessas (sim, ela já me pediu para colocar Linux no notebook dela). Por sorte eu não sou ela e sei editar o xorg.conf, mas não achei graça nenhuma. Se eu fosse a minha mãe, eu teria procurado outra distro na hora ou simplesmente desistiria do Linux, não importando o quanto meu filho me dissesse que é o máximo.

Mas ok, justiça seja feita, depois de resolver o bug, tudo correu às mil maravilhas e os efeitos 3d estão mais estáveis do que nunca. Cool! Vamos passar para o desktop!

Er… go go go?

Live CD no drive e… ei, por quê a minha tela está em 800×600? Eu tenho uma boa placa de vídeo e um monitor razoável, isso não deveria acontecer. Não estou vendo o problema das fontes enormes, mas os pixels…

Aparentemente, o Ubuntu detectou o a minha placa corretamente como NVidia, mas o Live CD carregou um driver genérico e se recusava a ir além dos ridículos 800×600. Resultado: tive que ficar arrastando as janelas do instalador para cima e para baixo para poder editar os parâmetros e apertar os botões para continuar.

Eu já uso linux há algum tempo e sei que apertar Alt junto com o botão da esquerda faz com que a janela seja movida, independente do lugar onde o mouse é clicado. Um usuário novato só vai conseguir fazer isso clicando na barra de título – a mesma que fica escondida debaixo da barra de menu enquanto a janela está deslocada para cima.

Outro vacilo de interface.

Em 2007.

Num linux que supostamente é para novatos.

Acho que vejo um padrão aqui.

A instalação corre bem, mas o problema da tela só se resolve quando os drivers restritos da NVidia são ativados. Depois disso, tudo é festa.

A parte boa

Realmente o Ubuntu 7.10 está com várias melhorias, principalmente na configuração monitores (depois que você consegue fazer o vídeo funcionar direito, pelo menos) e impressoras. As partições NTFS do windows são detectadas e configuradas com suporte para leitura e escrita automaticamente, uma feature que nem o MacOS tem ainda. Alguns controles foram mudados de lugar e agora estão bem mais intuitivos (o painel Appearance é um bom exemplo) e a integração do Firefox com o sistema melhorou bastante, incluindo a instalação de plugins e extensões.

High Five! Mas a melhor novidade na minha opinião é o pacote Ubuntu Restricted Extras, que instala todos os codecs necessários para tocar formatos de áudio e vídeo (com exceção de DVDs com região – falo mais disso em seguida). Isso elimina completamente a necessidade de instalar o Automatix, que tem a fama de bagunçar o sistema.

Ficam faltando apenas uns poucos codecs e o suporte completo a DVD, mas para isso basta adicionar o Medibuntu à lista de repositórios, marcar todos os upgrades e instalar o libdvdcss2. Depois disso, o Ubuntu se torna um sistema multimídia absolutamente completo. High Five!

A parte ruim

Eu fiquei realmente decepcionado com os bugs de instalação na versão final. É impossível ter um sistema 100% livre de bugs, mas o problema das fontes é bem visível e de solução relativamente fácil para usuários com alguma experiência. O problema é que ele está marcado até agora como bug de importância média no Launchpad. Não acho que um bug que pode potencialmente afastar milhares de usuários que têm notebooks com vídeo Intel seja apenas medianamente importante.

Outro bug que grande parte da comunidade de desenvolvedores teima em insistir que é uma feature é a falta de suporte default à cedilha em teclados americanos. Por padrão, digitar acento agudo + c resulta em ć. O argumento para isso é que usuários do leste europeu usam o c acentuado e que existe uma outra combinação de teclas que gera o cedilha (não me pergunte qual é, eu não sei). Em tese, há mais línguas que usam o ć do que o ç. Ok, em número de línguas vá lá, mas em número de usuários… duvido um pouco.

Para mudar isso, é necessário editar um arquivo que, em teoria, não deveria ser alterado manualmente. Novamente: imaginem as suas mães fazendo isso! Seria muito mais simples adicionar uma variação ao modelo de teclado, certo? Já há algumas no painel de controle, então por quê não essa? Eu e a torcida do Flamengo (pelo menos a parte que usa Ubuntu) sabemos que isso não é difícil. É só uma questão de convencer os teimosos encarregados dessa parte da distro a incluir um modelo de teclado US-Brazil. Custa?

De um modo geral, o release anterior saiu bem mais redondo que esse. Espero sinceramente que esses bugs sejam corrigidos em breve e que uma nova versão dos arquivos ISO seja colocado no ar o mais rápido possível.

Configuração completa dos computadores

Notebook Toshiba M35X-S311 (Centrino)

  • Processador Pentium M 1.5Ghz
  • 1Gb RAM (64Mb compartilhados com vídeo)
  • HD 100Gb Toshiba
  • Drive combo CD-RW/DVD-R
  • Touchpad ALPS
  • Wi-Fi Intel ProSet
  • 3 portas USB2.0, 1 mini-Firewire, 1 Ethernet, 1 Softmodem
  • Porta PCMCIA
  • Leitor de cartões 6 em 1 ENE (não suportado no Linux)

Desktop AMD64 (montado)

  • Processador Atlhon64 3200+ Socket 939
  • 2Gb RAM (128Mb compartilhados com vídeo)
  • Placa-mãe Gigabyte GA-K8N51GMF-9 (chipset NForce)
  • Video on-board GeForce 6100
  • 3 HDs: 2 x 80Gb (Samsung) e 1 x 30Gb (Quantum)
  • DVD-RW LG
  • Placa de som SoundBlaster Live!
  • 6 portas USB2.0, 1 Firewire, 1 Gigabit Ethernet
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7 Comments

  1. Posted 22/10/07 at 9:45 am | Permalink

    Gosto de reviews assim, sem o lado fanboy, bem pé no chão, detalhadas. Parabéns pelo excelente trabalho. Traduza e mande para a Canonical, quem sabe eles acordam ;)

  2. Posted 22/10/07 at 10:33 am | Permalink

    Opa! Interessante sua análise, tive alguns problemas com o gutsy também. Você reportou os bugs no launchpad? Se todos já estiverem sido reportados, confirme o bug nos comentários, isso é importante.

    FZero: Sim, os bugs já haviam sido reportados (eu coloquei um link para o bug de vídeo no post). Vou colocar meus comentários por lá.

    Agora, bom, aqui, teclado abnt2, com o layout usual ‘ + c = ç. mas, vc já tentou ~ + c? Talvez funcione aí.

    FZero: O meu desktop está com teclado ABNT2 e ‘ + c = ć. Com ~ não funciona nem no ABNT2 nem no americano. Eu vou pesquisar como se faz uma variação de layout e mandar para eles. Quem sabe eles aproveitam?
  3. Posted 22/10/07 at 11:45 am | Permalink

    a torcida do flamengo usa o URUBUNTU

  4. Posted 22/10/07 at 1:16 pm | Permalink

    tente alt-gr+, não que não devesse estar assim, mas só um workaround.

  5. Miguel
    Posted 23/10/07 at 9:34 am | Permalink

    Gostei do feedback, achei muito bem expresso, só tem uma falha, deveria explicar como se resolve esses erros e como instalar o pacote Ubuntu Restricted Extras, entre outras coisas que assinalou mas não aprofundou como se resolvia.

    FZero: Se você olhar bem, vai ver que eu coloquei um link para o bug relatado. Lá existe a solução para ele. Quanto à instalação do pacote, basta usar… o instalador de pacotes! :-)

    Estamos no mundo opensource, ele não é feito de versões perfeitas, afinal faz se o que se pode, isso é a principal diferença da microsoft, quem achar que é mal lançar cenas com erros, que use produtos de empresas com código fechado, essas é que têm uma filosofia para tal.

    FZero: Essa sua declaração é a muleta do mundo open-source e eu discordo violentamente dela. Se você tem intenção de lançar alguma coisa, você tem SIM que se preocupar em fazê-lo com o mínimo de bugs possível. Se o programa é beta, diga que ele é beta, mas mesmo assim se esforce para que ele seja ao menos usável. No caso de uma distro – principalmente uma distro que pretende ser amigável – isso se torna ainda mais importante. O Ubuntu atualmente é um dos maiores cartões de visita do mundo linux, gostem disso ou não. Ter falhas como as citadas num sistema que se tornou uma referência desse tipo é um problema sério, principalmente levando-se em conta que as versões anteriores não tinham esses problemas.

    Eu não acho que vá sair algum iso com melhorias, isso deverá só vir resolvido na próxima versão para abril.

    FZero: Houve um release intermediário do 6.06 para correção de falhas e upgrade de pacotes. Não vejo por quê eles não poderiam fazer o mesmo com o 7.10.

    Porque não podemos esquecer que todos os piores problemas que relatou tem haver com hardware e falhas nas empresas de hardware não trabalharem em conjunto. Até certo ponto é positivo que terminada marca fique marcada com não funciona e outra com funciona, assim faz as empresas abrirem os olhos ao opensource.

    Fzero: Mais uma vez você está usando frases-muleta. Sem falar que a placa de vídeo com driver fechado (nVidia) apresentou problemas bem menos graves que a que tem drivers abertos (Intel). O que você estava dizendo sobre deixar uma empresa marcada mesmo?

    Outra coisa que não se pode esquecer e que muitas vezes vejo é que o linux não é para quem não percebe de computadores, não foi concebido para isso, ele é feito de geeks para geeks, e tem aparecido empresas que tentam levar ao usuário comum, mas é normal que não fique perfeito porque ele não começou a ser projectado para isso como o Windows.

    FZero: Discordo mais violentamente ainda. Isso pode ter sido verdade quando o linux ainda era somente para servidores, mas atualmente esse não é o único caso. Não se esqueça que Linux é o kernel – todas as camadas subsequentes podem ser ajustadas como um projeto para o usuário comum sim. Esse é o projeto do Ubuntu e de várias outras distros. Se seguíssemos o seu raciocínio, o Mac OS também não seria o melhor sistema operacional para novatos, mas sim o mais geek de todos, já que é baseado no FreeBSD.

    Por isso chamar a mãe que não percebe nada de pc’s para historia é má politica e não compreensão do opensource. Este artigo retrata bem isso: http://apimente-br.tripod.com/LNW.htm

    FZero: Ao que parece, minha mãe é diferente da sua e da de quem escreveu o artigo. Sorte a minha. :-)

    Continuações e queremos mais artigos :)

  6. Elcione
    Posted 24/11/07 at 11:42 pm | Permalink

    Atualizei o ubuntu para a versao 7.10 no meu notebook thoshiba A 135-S4467, resultado: não reconhece a placa de som, nem o netbeans, que eu acho que ele removeu

    quem tiver uma sugestao, eu agradeço.

    Elcione Ramos

  7. Posted 16/03/08 at 10:59 pm | Permalink

    Cara, eu sou a usuaria tipo mae.

    E sem acentos, pelo que voce pode notar.

    E pior, eu rodo o Ubuntu do Live CD, porque nao tenho mais HD. Nem acentos. Nem cedilha.

    Gosto bastante do sistema operacional, mas essa falta de acentos que so’ e’ consertada na unha me atrapalha um pouco… nem sei como comecar! (10 anos usando windows, veja so)

    Achei justamente teu blog procurando no google como raios eu conserto meu teclado… bah, nao gostei da resposta, infelizmente =(

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