Coisas que eu gostaria que alguém tivesse me dito quando eu tinha 17 anos

Ontem eu estava pensando na época em que eu estava me preparando para fazer vestibular (iiiiih, faz tempo!) e, como todo mundo, tinha apenas uma vaga idéia do que queria ser “quando crescer”. É bem complicado escolher que faculdade fazer nessa idade. É pior ainda porque há sempre uma pressão absurda para passar de primeira (afinal cursinho custa dinheiro) e a revolucionária idéia de dar um tempo depois do 2º grau para pensar na vida e decidir direito é impensável.

O mais bizarro são os padrões que se repetem. Apesar do mercado de trabalho mudar o tempo todo, as escolhas de carreira mais comuns, sem ordem específica, são:

  • Medicina / Odontologia
  • Direito
  • Engenharia
  • Comunicação
  • Ciência da computação / Informática

Isso demonstra duas coisas: 1. A molecada continua sem a menor criatividade e 2. A pressão dos pais ainda se faz presente. Sobre 2 eu não preciso dizer nada, mas vou falar um pouco sobre 1.

Como os leitores mais antigos já sabem, eu sou formado em Comunicação Social / Produção Editorial pela UFRJ. Embora eu tenha chegado a trabalhar muito rapidamente com editoração, toda a minha carreira até agora foi ligada a programação e música.

Isso significa que eu desperdicei quatro anos da minha vida na faculdade? Não.

Eu sempre gostei de computadores e tecnologia em geral, mas nunca me dei bem com matemática. Por sorte entendi naquela época que computadores são uma ferramenta – um meio, portanto – e não um fim. Fora isso me dei conta que tinha talento para escrever, criar conceitos por aí vai. Comunicação então. Me inscrevi para Jornalismo (sempre achei propaganda um lance bem imbecil) e acabei passando para Produção Editorial. No começo pensei em pedir transferência, mas descobri que tinha dado a sorte de cair no curso mais generalista de todos e acabei ficando por lá. Aprendi um pouco de cada coisa, inclusive produção de vídeo e “hipertexto” – HTML! – na época em que a internet usava fraldas.

Por quê estou dizendo isso? Porque nem sempre a escolha é óbvia, e isso atrapalha bastante numa fase em que insegurança é uma constante.

Mas há outro fator bem mais interessante aqui. Eu escolhi uma das carreiras “pouco criativas” como disse acima. Ninguém olha torto para você quando diz que vai fazer Comunicação – no máximo os velhotes mais tradicionalistas vão dizer que isso não é carreira de macho (são os mesmos imbecis que fazem piada com Arquitetos). A melhor resposta para isso é comprar mais maços de cigarro para eles (de preferência roliúdi mata-rato) e trocar o Isordil por tabletes de sal. >:-)

Agora, digamos que você escolhesse uma das carreiras abaixo:

  • Geologia
  • Química
  • Oceanografia
  • Biblioteconomia

Muitas pessoas diriam que você está louco. Essas pessoas não sabem que Geólogos recém-formados são disputados a tapa por empresas de petróleo, podendo já começar a carreira em multinacionais com grandes possibilidades de trabalhar fora do Brasil. Também não sabem que Oceanógrafos são responsáveis por relatórios de impacto ambiental para projetos feitos na área costeira – e o Brasil tem um litoral enorme. Químicos não se formam apenas para serem professores: todas as grandes empresas de alimentos – fora as de petróleo, já citadas – contratam químicos a rodo. E Biblioteconomia precisa urgentemente mudar de nome para “Arquitetura da Informação”, porque esse é o conteúdo do curso, com enorme mercado de trabalho.

O problema é que ninguém diz isso nos cursinhos pré-vestibulares. Ninguém menciona também que a maioria dos jornalistas ou morre de fome ou ganha apenas o mínimo para se sustentar, que os publicitários milionários são uma parcela infinitesimal do todo (acredite, eu conheço vários), que nem todo advogado vira juiz, que grande parte dos estudantes de medicina não termina a faculdade (é uma profissão que exige vocação), que Informática é um curso de Matemática disfarçado e que Ciência da Computação não é um curso prático de onde você vai sair programando para o Google.

Isso significa que essas carreiras não valem à pena? Lógico que não. É tudo uma questão de pensar bem sobre o que você quer da vida – esquecendo a pressão de familiares, afinal é a sua vida e não a deles. Também é bom entender que muitas vezes você pode trabalhar exatamente com o que aprendeu na faculdade, mas numa ocupação aparentemente não relacionada (é só ver o meu caso).

Fora isso, lembre-se que você não é obrigado a acertar de primeira. Tenho vários amigos bem-sucedidos que começaram duas ou três faculdades antes de fazer uma até o fim e outros que sequer terminaram o curso e estão em ótimas posições. Caso você não saiba, Bill Gates, Steve Jobs, Silvio Santos, Michael Dell e muitos outros nunca terminaram um curso universitário e estão entre os maiores empresários do mundo.

Portanto, se você quiser fazer Gastronomia ao invés de Engenharia, vá em frente. É muito mais fácil se dar bem fazendo algo que você realmente queira fazer. A alternativa é ficar se torturando com cálculos intermináveis enquanto tenta juntar dinheiro para abrir um restaurante – depois de pagar as dívidas do seu casamento e seus 1,5 filhos, claro.

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6 Comments

  1. Tabgal
    Posted 9/06/08 at 9:12 am | Permalink

    Acho que você falou tudo mesmo. Curiosamente tive um papo parecido com esse de Química / Geologia com uma outra pessoa um dia desses; nas palavras dela ‘geólogo manda na Petrobrás’

    Claro que entrar numa dessas por esse motivo é como ‘fazer ciência da computação porque esse negócio de computador dá dinheiro’

    E tem lugares (tipo UFPR) onde biblioteconomia já virou ‘gestão da informação’ faz algum tempo…

    Tenho um diploma ‘tradicional’ de engenharia (embora eletrônica não seja tãããão tradicional assim), e vejo muita gente ao meu redor se enfiar em empresas e áreas que acabam sendo ‘dead-ends’ (e também que não tiveram senso crítico para saber no que estavam se enfiando, ou que estavam idealizando) e daí enjoam e vão fazer um MBA por aí.

  2. Gabriel
    Posted 9/06/08 at 11:42 am | Permalink

    Eu sempre quis fazer Oceanografia. Mas era longe pra caraio de casa.

    Hoje eu digo que sou um Oceanografo frustrado.

    Tudo porcausa daquele refrão, te lembra? Era mais ou menos assim “Ganhar grana para fazer seguro de vida”.

    Abraço,

  3. Posted 9/06/08 at 2:32 pm | Permalink

    Bem, eu queria fazer Dança. Diziam que eu ia morrer de fome, mas pelo menos eu ia morrer de fome realizada. Hoje estou velha e gorda pra ser bailarina profissional. Já era…

  4. Posted 9/06/08 at 3:37 pm | Permalink

    Eu queria criar videogames e fiz ciência da computação. Isso ferrou com minha vida inteira. Foi como dizer “eu quero fazer filmes por isso vou fazer física ótica”.

    O que eu queria que tivessem me dito quando eu tinha 17 anos era que existem basicamente três maneiras de ganhar a vida na sociedade atual:

    • Mercado: você busca dinheiro e posição social, e o trabalho é um meio pra isso.
    • Ciência: você busca descobrir coisas legais sobre a realidade, e o dinheiro fica em segundo plano.
    • Arte: você busca criar coisas legais e/ou estudar as coisas legais que as outras pessoas criam, e o dinheiro fica em segundo plano.

    Pessoas que escolhem 2 e 3 vivem sem grandes mordomias, sem casa na praia e carro do ano, mas não ficam morrendo de fome também. Eu queria o modo de vida 3 e escolhi 1 por engano, e agora estou sofrendo pra tentar me livrar do momento resultante.

    @renata: Dança é cruel com a idade, mas nada te impede de fazer um curso relacionado a expressão corporal e trabalhar como coreógrafa, dramaturgista, pesquisadora…

  5. Mauricio Perninha
    Posted 3/07/08 at 2:40 pm | Permalink

    Eu tenho quase certeza q vc mencionou Oceanografia por minha causa. Felizmente, ou nao, eu tive liberdade para escolher o q me desse na telha, sem pressao familiar. Foda foi ter q decidir o q fazer da vida aos 16 anos e descobrir depois q eu nao ficaria mergulhando o tempo todo mas sim trancado num laboratorio analisando restos mortais de mamiferos aquaticos…

    Depois da Oceano veio a Matematica e depois Informatica e Agora me sinto feliz e satisfeito estudando Administracao, ja q minha vocacao, no final das contas e depois de td o q ja fiz na vida, eh empreender.

  6. jenner
    Posted 4/07/08 at 6:32 pm | Permalink

    eu sonhava em me formar em antropologia ou sociologia.. por conta das tais pressoes parentais fui fazer marketing – que levei aos trancos e barrancos ate um dia ficar putaraço e fazer uma apresentacao na frente da turma tentando provar que tal e qual tentavam nos ensinar na faculdade da cidade – marketing nao existe (eu era da 2a. turma de marketing do brasil) – e nao existe mesmo.. aquele super homem que sem viver acredita que tem solucao pra tudo pq leu casos de outras empresas.

    nem preciso dizer q foi o meu ultimo dia na faculdade – nao voltei mais – mas sai de la aplaudido.. hehehehe… apos 3 anos daquela merda.

    bom, dai o fhc foi presidente – um sociologo – eh claro que havia um minimo ponto de contato entre a sociologia e a mercadotecnia (marketing).. anyway.. nao me formei.. sou puto com isso.. pq os melhores cursos sao sempre os de pós.. ando pensando seriamente em voltar a fazer uma faculdade – de preferencia essas a distancia – inclusive existem varios cursos publicos – infelizmente nenhum da lista da uerj, ufrj me interessou.. mas pretendo voltar.

2 Trackbacks

  1. By Diário de Leonardo Boiko on 16/06/08 at 5:14 pm

    [...] Fzero postou sobre esse assunto que eu ando pensando bastante esses tempos: em parte por ter escolhido o curso errado, encontrado o [...]

  2. By Pensando na vida « + Design + Gráfico on 28/10/08 at 10:20 pm

    [...] texto que li num dos meus blogs preferidos, o http://grosserias.blog.br/, me fez voltar a pensar neste [...]

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