Microsoft, Windows 7 e a solução para a pirataria

A Microsoft liberou esses dias o release candidate do Windows 7 – publicamente e de graça, assim como já havia feito com as versões beta anteriores. Mas esse RC contém uma surpresinha desagradável: depois do dia 1º de março de 2010, 3 meses antes do RC expirar, ele vai passar a desligar o computador do usuário a cada 2 horas.

Pra variar, quando a esmola é demais, o santo desconfia. É óbvio que se trata de uma versão de testes e é claro que eles têm todo direito de cobrar pelos seus produtos – é assim que o capitalismo funciona! – mas a Microsoft, como sempre, errou a mão. Aliás, o grande problema da MS é errar a mão sistematicamente. Esqueça por um momento a questão da (falta de) qualidade dos produtos deles; vamos nos focar no tratamento dispensado aos usuários.

O primeiro lugar onde a MS erra a mão é nos preços, especialmente fora dos EUA e Europa. O Windows Vista Home Basic custa em torno de de R$ 300 nas lojas. Trata-se da versão mais básica e minimamente útil para um usuário (não me venha com Starter Edition!). É o mínimo que qualquer um precisa para ligar um computador, ver aquela bandeirinha colorida e depois baixar pornografia na internet. Pois é, R$ 300 saindo do seu bolso só para isso (e percebam toda a gama de significados para “estou duro” neste parágrafo).

É bom fazer um parênteses aqui para lembrar que um Sistema Operacional sozinho não faz nada, independente de qual seja. Ele fica ali, sentado em cima do processador, esperando pacientemente você pedir para ele carregar algum programa e aí sim fazer algo produtivo. O SO até pode vir com alguns extras – melhores ou piores dependendo do sistema – mas em geral eles não passam de brinquedinhos e quebra-galhos. SOs, portanto, devem ser baratos ou dados praticamente de graça. No caso do Windows, digamos que uns R$ 50 seria um preço decente.

Óbvio que isso ainda é bem mais caro do que comprar num camelô da Sta. Ifigênia ou na frente do Avenida Central, mas pense bem: seria uma versão oficial do Windows, com manual e talvez alguns meses de suporte incluídos. Seria certamente um bom negócio, e não só para os usuários: a própria MS passaria a faturar em cima da enorme parcela de pessoas que prefere ajudar nossa vibrante economia informal.

Trata-se de um problema bem parecido com o da indústria fonográfica. Como é fácil achar o produto sem proteção contra cópias e outras restrições de graça (ou quase), menos gente compra o produto original e a empresa é obrigada a aumentar o preço unitário para compensar a diminuição nas vendas. A solução óbvia é reduzir bastante o preço, economizar na distribuição – usando a internet, claro – e eliminar restrições, que só servem para piorar a imagem da empresa junto ao consumidor.

Apesar de óbvia essa solução parece arriscada demais para a galera engomadinha com MBA emoldurado na parede, então ela nunca sai do papel. Aparentemente estamos condenados a assistir de camarote ao Titanic afundando com um circo pegando fogo em cima, enquanto executivos tentam não molhar seus ternos Armani ao se afogar. Pare de ler por um instante e mantenha essa imagem mental por alguns segundos. É, eu também achei engraçado. Reconfortante, até. :-)

Eu já falei sobre isso tudo aqui, e também ao vivo e a cores com representantes da Microsoft no primeiro Barcamp-RJ. Obviamente adiantou pacas, como vocês podem perceber nas recentes mudança de estratégia da MS. NOT!

A segunda grande errada de mão da MS é a insistência em prejudicar usuários em potencial. O pisca-pisca português do Windows 7 não é a primeira gracinha tentada por eles. Sob a eterna desculpa de “ação contra a pirataria”, a MS lançou há alguns anos o Windows Genuine Advantage, onde a grande advantage era o Windows permanecer funcionando normalmente. É o mesmo modus operandi da Máfia:

Fat Tony É bom você pagar pela sua licença ou algo ruim pode acontecer com os seus dados, capisci?

Belo jeito de tratar seus clientes, não? É óbvio que não funcionou – e em múltiplos níveis. Nossos amigos camelôs já tinham a versão com o WGA desabilitado uma semana depois e várias pessoas com cópias oficiais e registradas do Windows tiveram seus sistemas desabilitados por falhas no próprio WGA.

As impressões deixadas por um incidente desses são as piores possívels. Em primeiro lugar, fica claro que vale mais a pena ser pirata. Em segundo, a Microsoft reforça a fama de ser incompetente e antipática. Way to go, guys!

Não vai ser muito diferente com o pisca-pisca do Windows 7. Tenho certeza que ele vai ser desabilitado daqui a… hm… cinco minutos atrás. Lembre-se que foi a própria MS que distribuiu o sistema de graça dessa vez. Não há supostos piratas envolvidos aqui, apenas possíveis futuros clientes.

A MS ainda não entendeu que não adianta forçar alguém a comprar um produto, mas sim oferecer algo a mais – e de boa qualidade – pelo qual valha a pena pagar. Afinal não faltam alternativas, sejam gratuitas ou não.

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One Comment

  1. Thiago
    Posted 10/05/09 at 5:30 pm | Permalink

    Bom, acho que a questão é simples

    1 – 90% das pessoas são acomodadas demais pra saber o que é SO quanto mais tentar uma outra opção

    2 – A grande maioria dos fabricantes de PC se deixam sodomizar pela MS porque afinal sem windows não se vende PC E como o Windows Retarded, ops, Starter Edition é windows e é mais barato, bota esse mesmo…

    3 – O lucro das vendas ‘de caixinha’ da MS é minúsculo, o grosso do lucro está no empresarial e na venda OEM.

    FZero: Sim, isso é fato. Mas o interessante é que nas vendas de grande volume OEM, adivinha qual é o preço do Vista Home Basic? Pouco mais de R$ 50. Ou seja, a MS concorda comigo! :-)

    O WGA foi um fracasso, mas tenho a impressão que várias pessoas compraram o XP original depois disso

    FZero: Sei não, acho que a maioria chamou o sobrinho que “entende tudo de computador” e pediu para ele “reinstalar o uíndous”. Aí claro que entrou a versão sem WGA e tudo ficou do mesmo jeito.

    Ah, e esperar pensamento ousado e inteligente de MBAs, faz-me rir…

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